Nos dias 20 e 21 de setembro de 1920, Eugénie Caps escreve ao Padre Eich, seu diretor espiritual, uma carta muito interessante, bem antes do encontro com Mgr Le Roy, em que ela mostra como, progressivamente, dá forma à missão que recebeu, Fundar uma nova Obra missionária.
Recordemos: em 1915, Eugénie compreende que é chamada a fundar uma Congregação religiosa feminina, cujo contorno ela define de modo progressivo: Carisma unicamente missionário em 1915, nome de Filhas do Sagrado Coração de Maria em 1917, e uma espiritualidade própria que toca bem a do Padre Libermann.
Depois, em outubro de 1919, sob a direção do Padre Eich, Eugénie escreve ao Padre Clauss, Superior da Comunidade de Neufgrange. De 16 a 18 de setembro de 1920, Dom Le Roy, Superior geral da Congregação do Espírito Santo, de passagem pela Comunidade de Neufgrange, toma conhecimento das cartas de Eugénie Caps. Ele tenta encontrar-se com Eugénie e o Padre Eich para se conhecerem, propondo-lhes uma ida a Neufgrange, dia 17 de setembro, mas em vão. Finalmente contactado, o Padre Eich escreve a Dom Le Roy que, em sua carta de 8 de outubro de 1920, lhe propõe uma entrevista em Paris.
Em 20 e 21 de setembro de 1920, quando Eugénie escreve ao Padre Eich, sabe apenas que Dom Le Roy gostaria de os encontrar. Ainda não se conheciam.
A 20 de setembro, Eugénie escreve algumas linhas nas quais deixa explodir a sua alegria, uma alegria profunda que se enraíza na sua união com Jesus.
« Nós temos a nossa própria felicidade, não temos necessidade de a procurar. Eu compreendia isto bem no início da santa Missa e esta noite, uma vez mais, um enorme desgosto pelas coisas do mundo. Mas, esta manhã, era Jesus. Oh sim, n’Ele está a verdadeira felicidade, a união com Jesus. Quem dira como é grande a felicidade de receber Jesus no seu sacramento de Amor, oh! Então Jesus dá força e coragem. Sim, a obra pode retomar-se com um novo impulso.»
A 21 de setembro, Eugénie continua a sua carta abordando outro assunto, o da saúde do Padre Eich. Com efeito, ele põe-lhe indiretamente uma questão, «qual é o jejum que agrada a Deus?1» É também a nós que ela faz esta pergunta, porque o interessante, é que Eugénie coloca em paralelo a ascese e a missão confiada. Qual é o sacrifício do missionário que agrada a Deus? Com efeito, este enfraquece, com o pretexto de uma ascese de jejum e privação de sono. «É este o jejum que agrada a Deus?» A resposta de Eugénie é muito clara, a sua escolha está feita. Trata-se de estar com boa saúde para trabalhar na vinha do Senhor. Alguns anos mais tarde, por ocasião do 1º Capítulo geral da Congregação, Dom Le Roy exprime-se assim: «Vós praticareis a penitência de modo excelente aceitando, de bom grado, os sofrimentos físicos e morais que vos serão impostos: adeus à vossa família, às vossas relações, à vossa pátria; deceções, privações, insónias, trabalhos de todo o género, doenças, morte prematura. Devereis habituar-vos a um regime novo, talvez contrário aos vossos gostos, talvez insuficiente. São Paulo dizia: comei o que vos é servido. Isto deve ser a máxima de todo o missionário.2 Mas, eis aqui a admirável exortação de Eugénie ao Padre Eich:
« Como se encontra agora ? Vamos, coragem ! Ou então preferis que eu vos deixe nesta vida interior que vos torna o trabalho impossível? Para mim mesma, guardo a verdadeira felicidade, o verdadeiro repouso, sim, não o guardo para o Céu.
Antes de mais, uma vida cuja base é a vida íntima com Jesus, Maria e São José, a oração, a meditação, a sagrada Comunhão mas, com isto, a vida ativa, o esquecimento de si mesmo por Deus, a sua glória e a salvação dos outros. Há tanto bem a fazer. Uma boa palavra dada, um serviço prestado, quanto bem isso pode fazer?
Podeis dizer o que quiserdes mas, segundo as vossas aspirações, vós sois por uma vida ativa. Simplesmente, vós não conseguis fazer muito neste sentido, porque não tendes bastante força, o vosso corpo está muito fraco, falta de descanso e de alimentação. O vosso espírito está mais no céu que nos assuntos ligados a uma obra como esta que queremos fazer segundo os desejos do bom Deus. O que esta a fazer, é acabar com a sua vida. Ide pois ver nas Missões, com uma saúde como a vossa, mas eu não vos daria sequer dois anos de vida, vós não o suportaríeis.
Certamente, as graças íntimas são muito grandes. Jesus sempre gosta de nos ver unidos intimamente a Ele, mas ficaria ainda mais contente dos sacrifícios que uma alma sabe oferecer-lhe, para sua maior Glória. Partilhar a sua felicidade com os outros, eis o sacrifício. Mas, Jesus retribui mil e mil vezes mais.
Acredite-me, sinto muitas vezes a minha carga, a obra pesa-me, mas faço-o apesar de tudo, faço-o com alegria de coração e, quando recebo a sagrada comunhão, uma visita, a oração, quantas vezes me sinto livre de tudo. Então é o repouso em Deus. O trabalho era para Ele, e Ele dá-me de volta o repouso
que não se encontra senão em Deus. Daí me vêm as graças, daí me vem a coragem, a força, a alegria, a felicidade, a satisfação. Eu sei que Deus é bom, sei que Ele nunca abandona aquela que trabalha para a sua Glória, e se Deus é bom para comigo, eu o sou para os outros. Os meus pensamentos voam até Deus, faço tudo por Ele.
A minha vida tem uma finalidade, sei que sou para Deus, eu devo ser, eu quero ser inteiramente d’Ele; então, mesmo o meu trabalho de escritório, de limpeza, é para Deus.
Muita coragem, em frente por Deus. Vós tínheis dificuldades, não queríeis falar-me demasiado delas, mais ainda, os sofrimentos físicos, atenção!»
Deixemo-nos tocar pela alegria, dinamismo, entusiasmo da nossa Fundadora. Que ela nos dê o seu espírito de sacrifício ordenado à Missão recebida e como as nossas Constituições no-lo transmitem: «A ascese própria da nossa vida missionária, segundo o espírito do Padre Libermann e a nossa tradição, consiste sobretudo nas privações, nas dificuldades, nos sacrifícios inerentes à nossa vida e acolhidos com um espírito sereno, livre, abertoe pacífico, na mansidão e na alegria humilde, que o apego a Jesus Cristo nos dá». Cf. A Nossa Vida Espiritana, n°35.
Entre-nos N° 487, Nossa Espiritualidade
1 Cf. Isaías 58, 6.
2 Prescrições de Dom Le Roy submetidas à aprovação do Conselho novamente eleito, a quando do 1º Capítulo geral da Congregação.
