Minhas Queridas Irmãs,
Caros Amigos,
Cá estamos nós, juntos para um bom bocado de caminho. À imagem destes dois discípulos, também nós caminhamos, talvez timidamente mas caminhamos, e interrogamo-nos sobre tudo o que vemos a Humanidade viver, neste momento da história do mundo. « Ora, enquanto eles conversavam e se interrogavam, o próprio Jesus aproximou-se e caminhava com eles ». Cf. Luc 24, 15. E Jesus caminhava com eles e Jesus caminha connosco. E Jesus continua a caminhar com o mundo de hoje em tudo o que ele vive de incompreensível, de imprevisível e de louco. Jesus caminha com todos nós. Ao ritmo de cada um e de cada uma de nós, Ele caminha. Ele caminha lado a lado, sem pressa, sem agitação, sem nos impor o seu próprio passo.
Mesmo se nas nossas conversas ou discussões dizemos palavras vazias de esperança, mesmo se regateamos, mesmo se amuamos, mesmo se… o importante é caminhar e não deixar de caminhar. Caminhar com a certeza do coração de que Jesus caminha ao nosso lado. E que Ele quer iluminar o nosso caminho perguntando-nos, « De que falavas enquanto caminhavas? ». Cf. Luc 24, 17.
Muitas vezes ouvimos dizer que um desses discípulos que não tinha nome poderia ser cada um de nós. Nós também somos convidados a fazer uma releitura desta palavra metendo-nos no interior desta personagem sem nome. Imaginemo-nos então no interior desta personagem. Uma personagem desiludida de tudo o que vê e o que ouve em Jerusalém. Ele ou ela vai com Cléofas para o lugar que eles certamente já conheciam. Escolhem voltar as costas a um futuro que lhes parece desconhecido. Preferem voltar as costas à abertura de uma esperança que, para eles, está morta. Estão fartos da novidade. Esta novidade que já não podem dominar nem explicar aos seus. Que não podem controlar nem argumentar aos olhos do mundo. Tudo lhes escapa. É um fracasso terrível. É uma morte sem saída. Tudo parece um ponto final.
De repente, de outro modo e serenamente, Jesus começa a caminhar com eles. É a maneira própria de fazer do Ressuscitado, de caminhar connosco. Jesus não faz nenhum ruído. Aproxima-se sem se impor na nossa caminhada. Mas os nossos olhos parecem demasiado fechados para O reconhecer. « Os seus olhos estavam impedidos de O reconhecer». Cf. Luc 24, 16. Porque nós nos debruçamos sobre os nossos pontos de vista seguros e estreitos, dobramo-nos sobre os nossos fracassos não ultrapassados, detemo-nos nas nossas intermináveis amarguras e colocamos em causa a esperança que nos animava. « Nós, nós esperávamos que fosse ele a libertar Israel. Mas com tudo isto, é já o terceiro dia depois que tudo isto aconteceu ». Cf. Luc 24, 21.
Durante esta Quaresma, nós quisemos colocar os nossos corações ao ritmo de todas estas mulheres de Páscoa, num mundo de Sexta-feira Santa. Mulheres que estão a procurar e que procuram onde encontrar o Senhor. Que correm para todo o lado à sua procura. E elas procuram-n’O neste mundo em que hoje vivemos. Aquele mundo onde a lei do mais forte, do mais poderoso, do mais corrompido, do mais influente, do mais belo, do mais demonstrativo, do mais armado tem direito de falar e de ser ouvido.
E para nos aguentarmos na nossa procura, cada semana da Quaresma recebíamos uma página de meditação que nos indicava um caminho possível, para atravessar os muros que fecham os nossos olhos, para « sair de si, ver os interesses de Jesus e das almas ». Cf. Cartas da Irmã Eugénie Caps a Catherine Frentz, Coleção 2, página 7. Uma bela maneira de encontrar o Senhor, « Não ardia o nosso coração, enquanto Ele nos falava pelo caminho e nos abria as Escrituras ? ». Cf. Luc 24, 32.
A Palavra de Deus põe-nos a caminhar e abre os nossos sentidos a uma nova respiração. Nós temos necessidade de respirar outro ar, aquele que nos ensina a contemplar as nossas irmãs e os nossos irmãos segundo os dons do Espírito e não ao sabor das nossas invejas. « Os dons da graça são variados, mas é o mesmo Espírito. Os serviços são variados, mas é o mesmo Senhor. As atividades são variadas, mas é o mesmo Deus que age em tudo e em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem ». Cf. Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios 12, 4-7.
Tomar a decisão de viver este Pentecostes escolhendo, por atos conscientes, o Bem, é corajoso. Avançar sem medo, deixando que o Espírito guie os meus passos e se manifeste no meu caminhar, através dos passos que eu aceito dar em vista do Bem, é corajoso. Decidir cultivar na minha interioridade a certeza de que o Espírito me dá a graça de respirar um novo ar, e que Jesus me acompanha na minha caminhada, por vezes titubeante, é corajoso. Então, não tenhamos medo, porque o Senhor nos promete uma força, a do Espírito. Cf. Atos dos Apóstolos 1, 8. E esta força sustenta as nossas escolhas e apoia a nossa coragem.
Nós sabemos que não estamos sozinhas ou sozinhos neste acolhimento do Espírito do Bem, nem nesta caminhada quotidiana de procura do Senhor da Vida. Nós estamos em comunidade e em fraternidade, em família religiosa e em família humana. Juntas nós arrancamos as más ervas do caminho.
Limpamos juntas ou juntos o caminho, se ousarmos preservar na nossa passagem flores de todas as cores, de todas as espécies, de todos os tamanhos e de todos os perfumes.
Limpamos juntas ou juntos o caminho, se recusarmos submeter-nos ao ar do tempo, que nos fecha em compartimentos de beleza estereotipada, em códigos de narcisismo, reduzindo a pessoa a um algarismo de proveito, querendo tirar todo o ânimo a todos aqueles e aquelas que escolheram dar lugar ao Espírito do Bem, enfim, procurando matar a diversidade do Espírito.
Ao fazer memória da narração do Pentecostes notamos que Jesus vem ter com os discípulos quando as portas do lugar onde se encontravam estavam ainda aferrolhadas. Cf. João 20, 19. Então, é nesse momento que o Senhor sopra sobre eles, como sopra hoje sobre nós, e nos diz com a mesma intensidade nas suas palavras « Recebei o Espírito Santo ». E se verdadeiramente nós queremos recebê-lo com toda a liberdade, nós recebemos o Espírito Santo.
Como identificar o seu Espírito entre tantos espíritos? Ora bem, nós sabemos todos que identificamos muito nitidamente o seu Espírito porque ele traz o odor do Bem e da Paz. É unicamente por este odor do Bem e da Paz que nós podemos reconhecê-lo.
Minhas Irmãs e nossos Amigos, vivamos este Pentecostes caminhando sem afrouxar o passo, segundo o Bem e a Paz do Espírito. Caminhemos contribuindo com os nossos esforços para fazer o primeiro passo em Bem e em Paz, quando for necessário. Caminhemos sendo também portadores e portadoras deste Espírito do Bem e da Paz, daquele que nos oferece estas páginas do Evangelho. Porque a manifestação do Espírito que nos é dada, está ao serviço do Bem de todos. Ousemos então ser pessoas que espalham, com determinação, este bom odor, que é o Espírito do Bem e da Paz do Senhor.
Que a admiração e a gratidão para com a fidelidade do Senhor vos acompanhem.
E que Maria, Nossa Senhora da Luz, vos ilumine, velando pelos vossos discernimentos.
A cada um e a cada uma de vós, desejo um Pentecostes cheio do Espírito de Bem e de Paz.
Irmã Olga Fonseca
Superiora geral das Irmãs Espiritanas
